Sérgio Astral
Barra do Garças, cidade banhada pelas águas sagradas dos rios Araguaia e Garças, vive uma semana de profunda reflexão e celebração. O Centro Cultural Valdon Varjão, tradicional guardião da memória regional, abre suas portas para a Semana dos Povos Originários no Araguaia, um evento que transcende a mera exposição artística para se tornar um marco político, social e pedagógico. Organizada pela União pela Igualdade Racial do Araguaia (UIARA), a programação deste dia 16 de abril de 2026 promete ser um dos pontos altos da jornada, unindo o rigor acadêmico à vivência prática dos detentores de saberes tradicionais.
A iniciativa surge em um momento crucial de afirmação das identidades indígenas no Mato Grosso. A UIARA, um coletivo que pulsa com a diversidade étnica e o compromisso com a justiça social, concebeu este evento para ser um espelho da pluralidade do povo negro e dos povos originários. Com entrada franca e uma proposta inclusiva, a Expo-Indígena convida a comunidade a mergulhar em um universo que, embora esteja geograficamente próximo, muitas vezes permanece invisibilizado nos centros urbanos.
Uma imersão de sete dias: a programação permanente
Durante toda a semana, das 08h às 22h, o Centro Cultural Valdon Varjão oferece uma estrutura fixa de exposições que serve como porta de entrada para o universo dos povos originários. O público poderá contemplar:
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Exposição de Artes Visuais e Artesanato: Uma mostra curada para exibir a estética e a cosmologia indígena através de pinturas, adornos e utensílios.
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Mostra Literária e Audiovisual: Espaços dedicados à produção intelectual indígena, combatendo a ideia de que esses povos pertencem apenas ao passado.
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Esporte e Dança: Demonstrações que reforçam o vigor físico e a espiritualidade expressa através do corpo.
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Ação Solidária: O evento mantém, de forma ininterrupta, a arrecadação de agasalhos, roupas, calçados, brinquedos e alimentos não perecíveis para comunidades em situação de vulnerabilidade.
O ápice do debate: destaques da programação especial
Se a exposição permanente encanta os olhos, os momentos de debate e círculo de saberes são desenhados para provocar a mente. A UIARA selecionou datas estratégicas para promover encontros de alto nível técnico e humano.
16 de abril: o encontro da ciência com a tradição (a partir das 19h)
A noite de hoje é dedicada à desconstrução de preconceitos e à garantia de direitos. A programação inicia com o Documentário Indígena “A’uwê Uptabi – O Povo Verdadeiro”, uma obra essencial para compreender a autodenominação do povo Xavante e sua organização social.
Após a exibição, o palco recebe três palestras magistrais:
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O porquê do Abril Indígena: Com o Prof. Me. Caetano Tserenhi’ru Moritu, que discutirá a ressignificação do mês de abril como um período de luta política e não apenas de celebração folclórica.
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Garantia de Direitos Sociais e Previdenciários: A Profa. Dra. Dandara Amorim (Direito-UNIVAR) abordará a burocracia estatal e como garantir que os benefícios cheguem efetivamente às aldeias Xavante, tratando o direito como ferramenta de cidadania.
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A Pluralidade das Línguas: O Prof. Dr. Maxwell Miranda (UFMT/CUA) levará o público a uma viagem linguística, mostrando que as línguas indígenas são bibliotecas vivas de conhecimento ambiental e filosófico.
Simultaneamente, o Círculo de Saberes Tradicionais trará o protagonismo de lideranças como Agnelo Temrite Wadzatsev (Saúde), Heliana Rewaimo Tsi’eiwa’adi (A Mulher na Cultura Xavante), Oscar Waraiwe Urebete(Políticas Culturais) e Xisto Tserenhi ru (Identidade).
18 de abril: aprofundamento e reflexão (manhã e noite)
No sábado, a programação se intensifica em dois turnos: das 08h às 12h e das 19h às 22h. Estes horários foram reservados para uma imersão ainda maior nos processos de resistência cultural. O foco será a transmissão transgeracional do conhecimento: como os mais velhos transmitem a essência Xavante para os jovens em um mundo cada vez mais digital e globalizado.
A Uiara e a Missão de Igualdade
A União pela Igualdade Racial do Araguaia demonstra, através desta organização impecável, que a igualdade não se alcança sem o conhecimento das diferenças. Ao trazer para o Centro Cultural Valdon Varjão — um local que leva o nome de um ícone político e cultural de Barra do Garças — a Semana dos Povos Originários, a UIARA promove uma reparação histórica simbólica.
O coletivo reforça que a identidade brasileira é composta por múltiplas camadas, e que o povo negro e os povos originários são os alicerces dessa construção. O evento é um convite para que a sociedade civil de Barra do Garças deixe de ser mera espectadora e passe a ser aliada nas causas indígenas.
O papel do Centro Cultural Valdon Varjão
O Valdon Varjão consolidou-se como o maior polo de fomento cultural da região. Ao abrigar a Expo-Indígena, o espaço cumpre sua função social de ser uma “casa do povo”. A infraestrutura foi adaptada para receber não apenas os visitantes, mas também os indígenas que participam ativamente da programação, garantindo que o diálogo ocorra em um ambiente de respeito e acolhimento.
Solidariedade como prática cultural
Um dos diferenciais deste evento é a integração da assistência social com a celebração artística. A campanha de arrecadação de agasalhos e alimentos reflete o conceito indígena de coletividade: ninguém fica para trás. Em um mês de abril que muitas vezes marca o início da transição para o clima mais fresco no Centro-Oeste, a doação de roupas e calçados torna-se um ato de humanidade imediata.
Por que participar?
Muitas vezes, a população urbana vive a poucos quilômetros de terras indígenas sem compreender a complexidade daquelas culturas. Participar da Expo-Indígena é uma oportunidade de quebrar a “bolha” informativa. É aprender sobre a política de saúde indígena com quem está na ponta do sistema, como Agnelo Temrite; é ouvir de Heliana Rewaimo sobre o papel sagrado e político da mulher nas aldeias; é entender, através de Oscar Waraiwe, que cultura também é política.
A gratuidade do evento, garantida pelo esforço da UIARA e seus parceiros, democratiza o acesso a um conteúdo que, em outros contextos, estaria restrito a auditórios universitários fechados. Aqui, o conhecimento é público, é aberto e é necessário.
Um convite à transformação
A Semana dos Povos Originários no Araguaia termina no dia 19 de abril, mas o impacto dos diálogos estabelecidos no Valdon Varjão deve ecoar por todo o ano. Barra do Garças reafirma-se como uma cidade que não apenas admira suas belezas naturais, mas que honra as mãos que cuidam dessa terra há milênios.
Convidamos cada morador, cada estudante, cada família a dedicar algumas horas desta semana para visitar a exposição e, especialmente, para ouvir as vozes que ecoarão nos debates de hoje (16/04) e do próximo sábado (18/04). Que a Expo-Indígena seja o ponto de partida para uma nova relação entre a cidade e as aldeias, baseada no reconhecimento, na justiça e na admiração mútua.




