Paulo Rangel
O momento geopolítico atual, no qual vivenciamos em tempo real, tudo pela tela de nossos celulares, trouxe à tona temas que aparentemente não recebiam tanto destaque nos últimos anos, exceto em painéis governamentais mais focados em questões ambientais do que em realidade geopolítica. Guerras, invasões, deposições e disputas comerciais agressivas parecem retomar problemas que aparentemente foram relevantes nas décadas de 70, 80 e 90, e cuja narrativa política conseguiu desviar o foco por muito tempo. Agora, porém, apresentam-se diante de nossos olhos, causando grande impacto desde nosso dia a dia quanto para o Agronegócio, força motriz de nosso País, e testando mais uma vez a nossa capacidade de resolução de problemas complexos.
Apesar de pouco conhecidas em profundidade, questões sobre nossa dependência de Diesel e Gasolina importados, cerca 25% de nosso consumo em média, pelo simples motivo de não termos capacidade de refino do petróleo que produzimos, até temas como nossos pontos fortes, onde há mais de 40 anos o Brasil vem apresentando soluções para esses problemas, baseados exclusivamente no uso de derivados do petróleo, e fazendo isso de forma limpa e sustentável! Infelizmente, pouco se valorizam os grandes personagens que abriram esse caminho no passado, justamente quando enfrentávamos uma crise global semelhante à vivenciada hoje. Nomes de brasileiros geniais, como o professor Bautista Vidal – que, nas décadas de 70 e 80, criou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) – e, mais recentemente, o professor Expedito de Sá Parente, autor da primeira patente mundial de biodiesel e bioquerosene, ainda figuram como desconhecidos à maioria do Brasileiros. Se hoje podemos gozar de algum conforto perante essa crise mundial, muito se deve a eles e às suas ideias.
O ponto focal dessa reflexão é nos questionarmos, como cidadãos, do quanto poderíamos estar mais avançados hoje e o quanto ainda podemos progredir. Também é importante compreender que a resposta não está em soluções de curto prazo como, por exemplo, a importação massiva de carros elétricos. Uma alternativa que, além de gerar maior dependência comercial externa, apresenta aplicabilidade restrita aos grandes centros, sendo pouco útil para a maior parte dos brasileiros que vive fora dessas regiões e necessita de meios de transporte capazes de percorrer grandes distâncias.
A atual política brasileira de biocombustíveis prevê a mistura de 30% de etanol (E30) na gasolina e de 15% de biodiesel (B15) no óleo diesel. Apesar de ser um fator primordial para a nossa estabilidade energética, tais percentuais estão aquém do que já poderia ter sido adotado. Quem não se lembra dos veículos que funcionavam 100% etanol e que foram substituídos por versões flex que, por sua proposta multicombustível, penalizam a eficiência em detrimento da versatilidade? O quanto mais avançados não estaríamos se o desenvolvimento e as pesquisas de motores exclusivamente a álcool não tivessem caído no esquecimento em razão da adoção do modelo flex?
A mesma lógica vale para o uso do biodiesel: enquanto ainda se discute ardentemente o aumento de sua mistura em apenas 1% ao óleo diesel, algumas iniciativas privadas já validam o uso em motores 100% a biodiesel, tanto para o uso no transporte quanto em máquinas agrícolas. Essa adoção já poderia estar impactando positivamente o cenário nacional, ampliando a independência energética e reduzindo a emissão de poluentes.
Proponho um olhar otimista e confiante perante o desafio atual, temos um agronegócio pujante, que se destaca mundialmente tanto pelos elevados índices de preservação quanto pela diversidade de insumos para fabricação de combustíveis sustentáveis, que vão do milho à cana, da soja à macaúba. Ademais, não dependemos da abertura de novas áreas para expandir em muito nossa produção e contamos com conhecimento técnico-científico 100% nacional, à disposição do País. Do Etanol ao SAF, do Biodiesel ao Biobunker para navegação, honrar o legado e o exemplo destes ilustres Brasileiros citados e seguir avançando é o que nos cabe.
Quando consciente de toda essa história e impacto de suas escolhas, acredito que, no momento que um cidadão buscar um posto de combustível para abastecer seu veículo ou decidir pela aquisição de um novo meio de transporte, essas informações serão de grande relevância para sua tomada de decisão. Ressalto que, com simples atitudes, cada um de nós pode – e deve – participar ativamente na resolução deste problema, e vislumbrar o fim dessa disputa por combustíveis fósseis, um recurso não renovável e poluente, que recorrentemente se impõe de forma muito negativa, às gerações em todo o mundo, sem a menor distinção.
Devemos ter a real noção de que o Brasil reúne soluções e condições para protagonizar uma verdadeira virada de página na história, para isso sociedade civil, governo e iniciativa privada devem estar alinhados. Assim, além de nos destacar como o país do futebol, poderemos nos orgulhar de sermos a pátria dos biocombustíveis, que tem e terão ainda mais, um papel fundamental tanto em períodos desafiadores quanto em épocas favoráveis.
Paulo Rangel, é Engenheiro, especialista em Economia & Finanças e Gestão de Projetos, com carreira Executiva dedicada ao mercado de Combustíveis Renováveis e Energia.




